Da Vinci 500

O mundo já celebra os 500 anos da morte — que ocorreu dia 2 de Maio de 1519, em Amboise, França— de Leonardo da Vinci.  A história e a obra do gênio florentino sempre me fascinaram. Visitei a casa Natal dele 2 vezes, a primeira delas em 2004, em Vinci, pequeno vilarejo perto de Florença. Acho que chamavam de “Vinci” porque não devia ter mais que 20 habitantes na época… brincadeira! Fiquei atônito ao entrar no quarto aonde ele deu o primeiro choro. Foi em casa mesmo, numa bacia de cerâmica, pois não existiam ainda maternidades em 1452. O Brasil só seria “descoberto” quase meio século depois. Em 2005 visitei o aposento em Amboise, onde ele faleceu, me emocionei ao estar ao lado do leito onde ele deu seu último suspiro no Castelo pertencente ao Rei Francisco I que o abrigou desde 1515. Essa a razão pela qual a Monalisa está em território francês, carregada pelo artista quando deixou a Itália a convite do Rei da França. Estive na Capela de St. Hubert ainda repousam seus restos mortais, nas imediações do Castelo.

Peregrinei para ver quase todas suas possíveis obras. Da mais óbvia, a Monalisa no Louvre que já tinha visto em 1980 (sempre achei uma imagem meio andrógina) até a “Madonna Litta” no Hermitage, em St. Petersburgo, no tempo que a cidade ainda se chamava Leningrado em 1984. A partir de 2005, junto com a Cris, vimos quase todas as obras dele, exceto 3: (i) a Madona do Fuso que está em Edimburgo na Escócia, (ii) o “ Salvator Mundi” que está nos Emirados Árabes, sua obra mais cara, comprada por um trilhardário príncipe árabe, sobre a minha polêmica intuição de leigo tem dúvidas se realmente é obra dele ; e (iii) o “Homem Vitruviano” que está na Academia de Veneza aonde passei tremendo dissabor em 2013 pois não pude ve-lá pois estava sendo restaurada. Implorei, mas a direção da Academia não me deixou dar uma “espiada”…vou vê-la agora no Louvre, aonde estará exposta a partir de setembro.

Da Vinci foi o primeiro profissional multi funcional (tão buscado pelo mercado hoje): pintor, escultor, desenhista, músico, arquiteto, engenheiro, criou e construiu protótipos de pontes, meios de transporte, máquinas voadoras e até canhões e vários tipos de ferramentas utilizadas em fábricas que só existiriam séculos depois.

Experts somam entre 12 a 14 as diversas profissões exercidas por Leonardo, que Não respeitou o tecnicismo de uma única profissão especializada. Foi polivalente, um exemplo de multi-tudo. Um polímata, como se diz hoje em dia. Da Vinci foi um grande Líder Transformacional , sua atuação transformou a História da Arte e serviu de poderoso combustível  para o Renascimento. O afresco “A Última Ceia” na Capela de Santa Maria delle Grazzie, em Milão, é considerada uma das obras pioneiras na pintura moderna por ter colocado um toque intangível, emocional, na cena bíblica. A sua “Dama com Arminho” (que está na Cracóvia, mas a vi nem lembro onde) inaugura a tridimensionalidade com o olhar de lado, transversal de Cecilia, a amante do Duque de Milão. Ele teve inúmeros discípulos e estimulou outros gênios como o Michelângelo, 25 anos mais jovem que ele. Da Vinci é, ele próprio, sua melhor Obra de Arte!

Além do talento , do gift, do dom, teve sorte: viveu durante a época de Lorenzo de Medici, o Magnífico, um governante de Florença, que, ao contrário de alguns poderosos que vemos nos dias atuais, harmonizou 3 componentes do sucesso como Governo: a Política com P maiúsculo, a Economia de Serviços  (o primeiro Banco da história da humanidade foi fundado em Florença pelo seu bisavô, Giovanni de Medici) e a Cultura , estimulando o desenvolvimento das Artes, da Filosofia, da Poesia (Dante Alighieri por exemplo) e da Ciência ( Galileu Galilei que fez parte dessa turma de notáveis florentinos). Galileu, inclusive, enfrentou o obscurantismo da Inquisição e para sobreviver teve que negar suas teses de que era o Sol e não a Terra o centro do Universo que depois foram validadas e mudaram o curso da Ciência. Que essa lição possa ser aprendida pelos governantes rasos e reducionistas que tentam podar o Pensar e o Questionar nos dias atuais.

Espero, em 2052, no meu aniversário de 100 anos, estar com energia suficiente para acompanhar ativamente a celebração dos 500 anos de nascimento dele. Muito grato, Leonardo, por continuar sendo uma fonte de inspiração para os novos profissionais polivalentes e transformacionais que tanto necessitamos nessa época de NeoRenascimento que estamos tendo a alegria de viver!

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