É preciso repensar a liderança

Muitos líderes continuam apegados a dogmas, princípios, ideias e práticas para uma realidade que já não existe mais, diz César Souza

Para César Souza, presidente do Grupo Empreenda, a crise da Covid 19 tem colocado à prova muita coisa no que se refere ao mundo corporativo: de valores e propósito das organizações até os líderes. “Muitos líderes continuam apegados a dogmas, princípios, ideias e práticas para uma realidade que já não existe mais”, diz.

É chegada a hora de as empresas mostrarem, de fato, quais são seus valores e propósito em meio a essa pandemia?

Sim, com certeza. E muitas empresas que tinham o discurso “pessoas em primeiro lugar”, na hora do sufoco, já começaram demitindo. Foi a primeira providência de algumas. Alguns dirigentes, líderes, professores e alguns intelectuais que também falam sobre pessoas, patrimônio humano etc. estavam abertamente defendendo que não houvesse isolamento, pois estavam mais preocupados com a economia do que com a vida. Eu sempre digo: entre a bolsa ou a vida, melhor escolher a vida, pois a bolsa a gente recupera se estiver vivo. E esse dilema entre “isolamento para salvar ou deixar ir para a rua para não morrer de fome” é uma falsa escolha, pois temos de preservar a vida e influenciar o governo para tomar as medidas econômicas cabíveis para mitigar a recessão. Acontece que ainda vivemos sob uma ótica da polarização, certo ou errado, preto ou branco, uma coisa ou outra. E, nesse caso, pode ser uma coisa “e” outra, ou seja, isolamento para preservar vidas “e” medidas do governo para garantir renda mínima para ambulantes e trabalhadores, assim como incentivo para empresas que comprometam em não demitir.

Em termos de liderança, o que esta crise nos ensina?

Que a liderança tal qual a conhecemos, hoje, está com os dias contados. Nenhuma transformação com essa crise da Covid 19 tem sido tão intensa quanto no componente liderança – o perfil, competências, habilidades e atitudes do líder que o momento da crise está a exigir. Mais do que nunca, está evidente que não existe um tipo ideal de liderança. O conceito de liderança situacional, surgido na década de 1970, merece ser revisitado neste momento. Líderes brilhantes em tempos de abundância e de crescimento da economia parecem perdidos no momento de restrição de recursos e de fragmentação da forma de trabalhar. Líderes centralizadores, tão criticados por acadêmicos e por pessoas mais liberais, parecem assumir protagonismo na hora das duras decisões que precisam ser tomadas. Lideres participativos, antes tão admirados, são percebidos como complacentes por não corresponderem à pressão do tempo e à velocidade com que precisam decidir e agir. Muitos líderes continuam apegados a dogmas, princípios, ideias e práticas para uma realidade que já não existe mais. Está evidenciada uma grande discrepância entre o discurso e a prática. Em muitos casos, o coração continua preso ao passado, nostálgico, apesar das tentativas de usar uma linguagem modernizante.

O CORONA VÍRUS NÃO VEIO SOZINHO. FAZ PARTE DE UM CONJUNTO DE NUVENS AMEAÇADORAS QUE JÁ VINHAM SE AVOLUMANDO NO HORIZONTE EMPRESARIAL

Nessa linha, podemos dizer que a experiência do confinamento coloca questões para as quais não temos precedência: como gerenciar equipes a distância…

E mais: como inspirar valores quando o acesso a todo tipo de informações parece ilimitado? Como educar filhos na era das fake News? Como conduzir os destinos de uma empresa quando praticamente todos os pilares foram postos abaixo? Como pilotar o turnaround da empresa sob tamanha dose de incerteza tanto sobre o macro cenário político – econômico mundial e local – quanto sobre os novos desejos e necessidades dos consumidores?

E qual o papel do RH hoje e como ele deve se preparar para depois deste período?

O RH precisa atuar em três ondas. A primeira, mais operacional foi o foco nas duas primeiras semanas da crise. Foco na saúde e segurança para os colaboiradores e seus familiares. A segunda onda é mais tática: a governança da gestão da crise, com criação do comitê da crise. A terceira onda é mais estratégica: uma reflexão estratégica sobre o futuro. Esse, aliás, foi o tema da minha live na ABRH.

Dentro do conceito de constelações familiares, algo que se percebe é que o Universo empre procura o equilírbrio. E enquanto as coisas não estão alinhadas ou equilibradas, há dor. Seria o momento de refletirmos a partir desse ponto todas as nossas relações?

Sim! O Universo está em desequilíbrio. O corona vírus não veio sozinho. Faz parte de um conjunto de nuvens ameaçadoras que já vinham se avolumando no horizonte empresarial, incluindo uma economia mundial inflada artificialmente em alguns setores, inúmeros negócios tradicionais sendo destruídos da noite para o dia por soluções disruptivas oriundas de startups tecnológicas, tensões internacionais em torno da produção e do comércio do petróleo, e, como se esses fatores não bastassem, pelo verdadeiro “apagão da liderança”, que tem exposto vários países e instituições. Como uma ventania indesejada, o vírus precipitou e exponencializou a turbulência que já se desenhava, impactando de forma imprevisível a vida social, comunitária, familiar e empresarial, em todos os continentes. As empresas, atônitas, se defrontam com desafios inimagináveis em um tema que nunca foi devidamente valorizado no Brasil: a gestão de riscos e de crises. Falta ao país experiência, capacitação e atitude para lidar com a complexidade de tal situação. No passado, crises perturbadoras afetavam empresas de forma casuística. Problemas de imagem, conduta ética, escândalos, acidentes ambientais e erros estratégicos aconteciam em ocasiões distintas, no tempo ou na geografia. Agora, tudo afeta todos de uma só vez, com pânico, depressão e temores. Contudo, o vírus não é o único culpado. Apenas desnudou nossa fragilidade social, empresarial, familiar e humana. Estamos vivendo um momento sem precedentes.

Texto Originalmente publicado na Revista Melhor

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